De onde surgiu a Economia Psicológica?

 

Um pouco de história para compreender os fundamentos e desdobramentos desta ciência aplicada:

A Economia Psicológica, também conhecida como Economia Comportamental ou Psicologia Econômica, é uma abordagem interdisciplinar que reflete a sinergia de duas ciências (Economia+Psicologia) no esforço de melhor compreender quem é o ser humano que toma decisões econômicas.

Dá-se aqui preferência ao termo "Economia Psicológica" por compreendê-lo como um termo academicamente mais correto, visto que a Economia Comportamental não se baseia em Psicologia Comportamental (o que por vezes gera algumas confusões), e sim em Psicologia Cognitiva e Psicologia Social. Hoje em alguns centros de pesquisa do mundo já se fala em Economia Cognitiva (Russel Sage Foundation). No entanto o resgate do termo "Economia Psicológica" utilizado pelo economista britânico George Katona (da primeira geração de economistas psicológicos) parece aqui ser a escolha mais adequada.

Partindo nossa análise da Ciência Econômica, é forçoso reconhecer que por muito tempo a Economia se apoiou em pressupostos comportamentais excessivamente irrealistas para formular suas teorias e modelos.

Toda teoria econômica necessita de algum pressuposto acerca do comportamento dos agentes, afinal, o que é a Economia sem o ser humano? Ela não existe. É o ser humano que poupa, investe, consome, emprega, empreende, e gira a roda da Economia. Sem o ser humano não existe Economia. Portanto para entender a dinâmica econômica é necessário antes de tudo compreender quem é o ser humano e o que o motiva. O que motiva um indivíduo a tomar uma decisão econômica?

A Economia Neoclássica, considerada mainstream na teoria econômica atual, se fundamentou no conceito de expectativas racionais e racionalidade completa, onde se supõe que um agente tem plenas condições de tomar as melhores decisões com base na informação disponível. Para os economistas neoclássicos a formulação de uma teoria econômica era um esforço dedutivo que não precisava compactuar com a realidade. 1

No entanto vários modelos econômicos construídos dentro desse referencial teórico começaram a apresentar uma baixa capacidade preditiva. Se as principais teorias de poupança dizem que o agente não poupará após a aposentadoria, o que fazer quando se observa em larga escala esse padrão nas economias reais? Se as principais teorias de escolha dizem que o agente maximiza e é consistente ao longo do tempo (ou seja, suas preferências nunca mudam) como explicar instâncias de arrependimento ou resultados e escolhas sub-ótimas? E se as teorias de finanças afirmam que as oportunidades de arbitragem tendem a ser exploradas até desaparecerem, como explicar o Enigma do Prêmio das Ações (Equity Premium Puzzle)2 dos Estados Unidos? 2 Quando um resultado observado não se encaixa nas previsões de uma teoria ele é chamado de anomalia. Chama-se aqui atenção para o importante trabalho realizado pelo economista Richard Thaler na década de 1980, que colecionava “anomalias do comportamento econômico” e as publicava em seu artigo no Jounal of Economic Perspetives.

De todo modo, se algo não vai bem é preciso rever conceitos e caminhos trilhados, pois o verdadeiro esforço científico não deve temer jogar fora antigos paradigmas e crenças arraizadas. Em resposta à limitação preditiva de alguns modelos economistas começaram a buscar na realidade observável pistas que pudessem colaborar na “reforma” desses modelos e teorias econômicas. Economistas começaram então a empregar um método novo conhecido como “Economia Experimental” que visa estudar o processo de interação e decisão econômica em laboratório. 3 Com isso diversos experimentos comportamentais foram conduzidos de modo a elucidar o processo de decisão econômica. Desse esforço experimental nasce a Economia Psicológica ou Comportamental. A Economia Psicológica acredita que quão mais realistas forem os fundamentos psicológicos das teorias econômicas melhores serão também as teorias em termos tanto de explicação do mundo à nossa volta quanto em termos de previsão de padrões futuros. E isso faz sentido, afinal, como querer prever se nem conseguimos explicar?

Desse modo a Economia Psicológica trabalha hoje desenvolvendo pesquisas e conhecimento  científico acerca de quem é o ser humano em Economia. Porque os agentes poupam, consomem, investem ou abrem suas empresas? Porque consomem isso e não aquilo? Porque têm dificuldade em poupar? Porque tem dificuldade em realizar perdas no Mercado Financeiro? Porque tem dificuldade em escolher investimentos? Porque tem dificuldade em respeitar seus próprios planejamentos financeiros? E assim por diante…

Grandes nomes de economistas comportamentais que tem desenvolvido um trabalho notável nas últimas duas décadas no sentido de abrir a “caixa preta” da mente humana estão destacados a seguir: Richard Thaler, Matthew Rabin, George Loewenstein, Colin Camerer, Shane Frederick, David Laibson, Dan Ariely, George Akerlof, Andrei Shleifer, Sendhil Mullainathan dentre outros.

Destacaria aqui também o importante e notável trabalho de outros nomes que fazendo parte de uma geração anterior à atual, inspiraram com seus estudos e tratados visionários o que viria a ser a Economia Comportamental: o economista Herbert Simon (ganhador do Nobel de 1978 pelo seu trabalho em “racionalidade limitada”); o economista George Katona que desenvolveu todo conceito do que é considerado hoje “pesquisa sobre expectativa dos consumidores”; e os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky (Kahneman ganhou o prêmio Nobel de Economia em 2002 pelos experimentos desenvolvidos junto de Amos Tversky que já tinha morrido na época do Nobel).

Institucionalmente chamaria atenção para a IAREP (International Association for Research in Economic Psychology) e para a SABE (Society for Advancement in Behvaioral Economics) duas associações internacionais que juntas organizam congressos anuais e “summer schools” sobre Psicologia Econômica e Economia Psicológica.4 A cada ano, mais e mais pesquisas vem sendo desenvolvidas por psicólogos e economistas que hoje em dia trabalham juntos no intuito de melhor compreender a tomada de decisão econômica.

No Brasil eu destacaria dois grandes nomes que contribuem e trabalham pela disseminação da área de pesquisa conhecida por Economia Comportamental: Vera Rita de Mello Ferreira e Roberta Muramatsu. Ambas doutoras levam adiante seus conhecimentos para promover e expandir a Economia Psicológica.

No mundo esses conhecimentos já balizam e pautam políticas econômicas no âmbito de planos de previdência e planos de poupança, dentre outras iniciativas, inspirados nas descobertas desse referencial teórico. (Cronqvist e Thaler, 2004; Thaler e Bernatzi, 2004)

Para saber mais visite a seção Pesquisas ou entre em contato conosco. Vale também conferir alguns dos links abaixo.


LINKS INTERESSANTES

Richard Thaler-http://faculty.chicagobooth.edu/richard.thaler/research/
Vera Rita-http://www.verarita.psc.br/portugues.php
Dan Ariely-http://web.mit.edu/ariely/www/MIT/
Nudge Blog-http://nudges.org/
IAREP-http://www.iarep.org/
Peter Earl-http://shredecon.wordpress.com/
Blog Economia Comportamental-http://www.economiacomportamental.com/
SABE-http://www.sabeonline.org/


1 Economistas Neoclássicos se baseavam na “tese do irrealismo das premissas” defendida pelo economista Milton Frieman (1953) que basicamente diz que não há problema algum na utilização de premissas irrealistas na construção das teorias econômicas. O importante é que os modelos econômicos sejam capazes de prever bem comportamentos futuros, esse sim é o ideal da profissão. Por exemplo, as premissas de racionalidade perfeita, informação completa, inexistência de incerteza, homogeneidade das preferências, consistência temporal, inexistência de custos de transação, entre tantas outras são algumas que podem ser consideradas irrealistas por dificilmente ser possível encontrar tal contrapartida na vida econômica real.

2 O Enigma do Prêmio das Ações (Equity Premium Puzzle) se refere ao fato de que no último século o investimento em renda fixa rendeu em média 1%, enquanto o investimento em ações rendeu em média 7% (levando em conta todos os períodos inclusive a Grande Depressão de 1929 – estes dados se referem à economia dos Estados Unidos). As teorias financeiras preveriam em suma que tal “gap” deveria ser minorado ao longo do tempo. Afinal um agente racional e maximizador deveria perceber tal oportunidade de arbitragem.

3 Para saber mais sobre Economia Experimental veja: Vernon Smith, 1989; Charles Plott, 1991; e Douglas David e Charles Plott, 1992.

4 Economia Psicológica ou Comportamental e a Psicologia Econômica são consideradas “ciências gêmeas”, seu objeto e objetivo de estudo são os mesmos, só os nomes diferem. Na Psicologia esse estudo é chamado de Psicologia Econômica e na Economia ele é chamado de Economia Comportamental ou Economia Psicológica.


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